QUANDO NÃO PAGAMOS PELO SERVIÇO NÓS SOMOS O PRODUTO

A experiência de usar plataformas de streaming na versão gratuita pode ser estressante e bem esclarecedora, pois nos deparamos com incansáveis séries de propagandas interceptando o conteúdo de interesse.

Nas redes sociais, também somos alvos digitais de anúncios, patrocínio, parceria paga com tal marca e por aí vai.

A experiência se repete ao acessarmos um site de notícias ou de fofocas, quando nos deparamos com uma diversidade de Cookies para aceitar, e sabe se lá quais informações estamos fornecendo para os sites.

As teorias da conspiração ainda podem nos assombrar com a possibilidade de nossos dados pessoais entrarem pra jogo assim que nos conectamos em uma rede de wifi “não segura”.

Esse assunto é um tanto mais complexo, mas no mínimo estamos abrindo o caminho para recebermos e-mail marketing – aqueles que depois teremos que perder um tempo abrindo um a um a fim de descadastrar nossa conta do sistema de mailing.

 

O ponto é que viramos um número, que compõe uma métrica e que pode vir a ser um “lead” de venda, e assim somos vendidas.

 

Não vejo isso como uma coisa ruim, quando as propagandas que me atingem são justamente as que combinam com o meu perfil. Mas parece exaustivo quando produtos que já não são mais do meu interesse se repetem no meu feed, e-mail e a cada poucos minutos de um vídeo.

Alguns jogos e apps nos recompensam por assistir 30 segundos de vídeos patrocinados, com moedas do próprio jogo, ou créditos.

Assim que pagamos pelo serviço, pelo jogo, ou criamos um post patrocinado, podemos perceber que imediatamente não somos mais alvo de tantos anúncios. Pois além de estarmos monetizando a plataforma, temos a possibilidade de virarmos os próprios anunciantes. Então enxugamos o alcance das marcas sobre nós para apenas o merchandising que adentraria a mídia, abraçadas pelo próprio produtor do conteúdo.

Entretanto, existe um mercado inteiro de freelancers que são recompensados monetariamente por serem alvos de anúncios. Isto é, literalmente ganham dinheiro assistindo a propagandas e clicando em links.

A problemática não está em apenas a propaganda ser redirecionada para um público “fake”, mas sim quando trazemos essa visão patriarcal da mulher como um produto da sociedade.

Acredito que a grande maioria de nós já frequentamos baladas onde mulher era VIP ou pelo menos metade do preço da entrada do público masculino. E como uma boa libfem, já acreditei que isso era um ótimo deal, já que eu estava pagando para fazer minha sobrancelha, unha e cabelo para a ocasião.

Essa questão é um tanto paradoxal, porque se eu fosse um homem, não me sentiria atraído por uma festa onde eu teria que pagar a mais que uma mulher.

Mas na prática, os homens que frequentavam esses espaços eram justamente atraídos pelo fato de que as mulheres eram o produto pelos quais eles estavam pagando indiretamente.

E isso alimenta de certa forma, um comportamento abusivo nesses ambientes, os quais muitas de nós já protagonizamos como vítimas.

Sendo assim, atitudes simples que podem ser vistas como uma mera gentileza como por exemplo deixar alguém pagar uma bebida para nós, um jantar, um presente, podem nos colocar nessa posição de produto, o que é muito sério.

Muitas vezes podemos achar de certa forma justo, uma vez que ainda não conquistamos a meta da equidade salarial entre os gêneros, que os homens paguem a mais.

O ideal, na minha opinião, não é querermos pagar tanto quanto eles nesses ambientes patriarcais. Mas sim, os evitarmos de maneira que forcemos uma mudança de comportamento generalizada e consequentemente a visão da sociedade sobre nós mulheres.

 

 

Isso acarretaria também em um avanço para diversas outras questões urgentes pelas quais ainda lutamos. Questões que infelizmente partem do conceito de que o nosso corpo é uma propriedade estatal, quando o Estado ainda é comandado majoritariamente por homens e também por mulheres contaminadas pela cultura patriarcal.

Podemos chegar onde queremos a partir de pequenas mudanças no cotidiano, e conversas diárias com pessoas próximas. A fim de disseminar um conceito básico, que temos propriedade para falar. Obviamente que não descartando quando necessário,  a criação e participação de movimentos que requerem uma maior conscientização e engajamento de uma potente rede de apoio.

Nossa rede de apoio pode e vai nos ajudar a fazermos a nossa parte para ocuparmos o espaço que nos pertence, com o respeito que é nosso por direito. Estamos hoje juntas por aquelas que ainda não estão aqui e graças àquelas que já estiveram!

E então, quem sabe no futuro, questões como a cultura do estupro, legalização do aborto, equidade salarial entre gêneros e violência contra a mulher não sejam as pautas pelas quais a próxima geração de mulheres precise lutar! Essa é a meta!

 

Isabela Ramalho

Empreendedora e entendedora de futilidades, apaixonada por tecnologia, autoconhecimento e fotos em tons pastéis.