Oscar 2016: porque boicotar é preciso!

16 de maio de 1929. Naquela noite ocorreu a Primeira Cerimônia do Oscar.

A premiação mais importante do cinema completa 87 anos em 2016 e pelo segundo ano consecutivo não há uma atriz ou ator negro entre os indicados para categoria.

Em 2014 tive o enorme prazer de chorar junto com milhões de pessoas ao redor do mundo ao ver Steve Mcqueen subir ao palco do Teatro Dolby localizado em Los Angeles e pegar sua merecida estatueta de Melhor Filme pelo maravilhoso longa-metragem “12 Anos de Escravidão”. E, para a noite ser ainda mais especial, pudemos comemorar o troféu de Lupita Nyong’o de melhor atriz coadjuvante pelo mesmo filme. Uma vitória para nós, negros. Uma luz no fim do túnel racista que insiste em nos rodear.

Na longa trajetória do prêmio nota-se que entre os 34 atores e atrizes que ganharam duas estatuetas nestes 87 anos somente um, RE-PI-TO, somente um era negro: Denzel Washington.

Não há nenhum negro que tenha ganhado três ou mais estatuetas, em nenhuma das categorias.

Em um país onde 13,2 % da população é negra podemos achar pelo menos “estranho” a falta de outros atores/atrizes com mais prêmios.

Vamos então pensar no por que desse gap gigantesco.

Viola Davis em seu discurso de vitória como melhor atriz dramática por sua atuação no seriado How to get away with murder,  que é transmitido pela ABC, disse que o principal motivo por não termos mais atrizes negras ganhando prêmios é a falta de oportunidade. Como serão nomeadas atrizes que sequer são conhecidas, não por falta de talento e sim por falta de chances?

Viola-davis

E, por favor, não citem mentalmente o nome de cinco (caso lembrem-se de “tantos”) atrizes ou atores negros , sejam estrangeiros quanto brasileiros e muito menos pensem: – Mas tem a atriz tal!  Porque citar as exceções nunca ajudou a melhorar nada. MESMO!

A falta de oportunidade começa dentro das produtoras e dentro da própria Academia que vota em todos os profissionais de todas as categorias. Para termos uma visão geral a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é composta por:

– 94% brancos
– 77% homens
– Idade média 62 anos
– 2% negros
– Menos de 2% latinos

É claro que a mentalidade da grande maioria é old school. Da época em que ator negro não podia beijar atriz branca. Da mesma época em que os pais e avós contavam histórias dos tempos que tinham escravos em casa.

As peças começam a se encaixar, não acha?

Ice Cube em entrevista ao Graham Norton Show, afirma que mesmo achando legal a premiação e o reconhecimento, crê que isto não é tudo. Eles não fazem filmes pelos prêmios, e sim porque amam o trabalho deles, pelos fãs, pela família e amigos. Ganhar um Oscar ou qualquer outro prêmio é uma consequência disto.

Mas todos sabem que simplesmente a indicação dá visibilidade e consequentemente mais oportunidades.

E foi graças a esta oportunidade que muitos profissionais da indústria audiovisual firmaram-se tanto no cinema quanto nas produções de séries televisivas.

As exceções como Spike Lee, Will Smith, Jada Pinkett Smith não poderiam conformar-se com (novamente) a exclusão de diretores, roteirista, atrizes, atores entre as outras categorias que não ganharão a oportunidade que precisam para terem mais reconhecimento.

O boicote ao Oscar não é somente uma forma de protesto. Não basta apenas postar vídeos nas redes sociais e mostrar sua tristeza e indignação. O boicote é expressar a sensação de não ter ganhado essa luta, mas não fraquejar nesta guerra terrível contra a opressão. 

Spike Lee e Jada Pinkett Smith anunciaram o boicote no dia do aniversário de Martin Luther King, um dos maiores líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e no mundo.

O grande cineasta Spike Lee postou uma foto em sua conta no Instagram na qual, além de anunciar sua ausência no Oscar 2016 fala sobre as inúmeras ligações que recebe todos os anos com a ausência ou fraca presença de negros nos indicados.

Will Smith juntou-se à decisão da esposa e também não comparecerá ao Oscar.

will e jada smith

Em apoio ao movimento George Clooney afirma que a Academia há dez anos fazia um trabalho muito melhor na diversidade, mas parece agora estão caminhando para o lado errado.

Mark Ruffalo e Michael Moore (autor de Fahrenheit 11 de setembro e membro da Academia) também se juntaram ao movimento. Entretanto, Ruffalo comparecerá à cerimônia.

Snoop Dogg, conhecido por seu linguajar repleto de palavrões, postou um vídeo em sua conta no Instagram afirmando que os atores, diretores, roteiristas, e todos os outros profissionais da indústria audiovisual deveriam criar um prêmio voltado ao público negro e deixar o Oscar para lá. Ele também não vai. Prefere fumar um baseado de boas em sua casa. 

A Academia, com essa chuva de protesto, anunciou que aumentará a diversidade de seus integrantes até 2020. A meta é que o número de mulheres, negros, latinos e outras minorias seja duplicado. 

“A Academia vai liderar e não vai esperar que a indústria se recupere sozinha do atraso”, disse o presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs. “Estas novas medidas terão um impacto imediato para iniciar o processo e mudar significativamente a composição.”

O que podemos fazer agora é aguardar que a meta seja atingida antes mesmo de 2020 e que não seja necessário implorar por atenção todos os dias. Que o reconhecimento do talento dos negros seja natural. Chega de assistir a este massacre que vivemos rotineiramente de braços cruzados. A mudança depende de mim e de você. Vamos em busca dela juntas!

E você, o que acha sobre o boicote ao Oscar? Conta pra gente nos comentários.

Naila Nunes

Estudante

Estudante de publicidade, mas o Plano A era seguir carreira de bailarina. É mãe da princesa Sarah que além de fonte de inspiração para seu blog pessoal é parceirinha de tardes culturais pelo Rio de Janeiro. Apaixonada por livros com cheiro de velho, acredita que a arte pode modificar o mundo.