“Dois adolescentes apaixonados por ciência desenvolvem juntos um projeto escolar que, caso dê certo, poderá ser o passaporte para as melhores faculdades dos Estados Unidos. Mas a ideia toma proporções maiores do que imaginadas pela dupla, quando eles decifram os cálculos para viagens no tempo que podem durar até 10 minutos”.

 

Essa é a sinopse de “Te vejo ontem” novo filme de ficção científica com roteiro young adult, da Netflix. E a ideia de filme que você tem na cabeça pode ser completamente diferente quando eu revelar alguns outros detalhes, como: o filme foi produzido por Spike Lee; é ambientado em um bairro americano violento e os protagonistas – CJ (Eden Duncan-Smith) e Sebastian (Dante Crichlow) – são negros.

 

 

Mais ainda quando a sinopse detalhe que os jovens voltam no tempo para impedir que a violência policial americana mate um amigo deles. Logo, este não é apenas uma história adolescente.

 

Com a direção Stefon Bristol, “Te Vejo Ontem” poderia ser apenas uma deliciosa comédia de Sessão da Tarde, como “De Volta para o Futuro” (1985) ou uma ação fantasiosa como foi Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004). Mas, quando se compromete a ter representatividade e protagonismo negro na história, são inseridos tons dramáticos. Isso porque, esses assuntos, apesar de fortes e pesados, são parte do universo de jovens negros.

 

Como é o caso de Starr Carter (Amandla Stenberg), protagonista de O Ódio que Você Semeia, que foi um dos black movies mais esperados de 2019. A história de Starr, se inicia a partir da morte de um amigo de infância, em ato racista de um policial branco americano, durante uma fiscalização no carro em que estavam, enquanto saíam de uma festa.

 

A garota de apenas 16 ainda passa por experiências como namoro interracial, o convívio com uma maioria branca na escola, tráfico de drogas e violência no bairro do guetto onde mora e muitas outras questões que jamais teriam que passar pela cabeça das protagonistas brancas de filmes e séries teens.

 

 

E esta necessidade de levar tantas pautas para novas gerações não é novidade. Até as hilárias comédias Um Maluco no Pedaço (1990 – 1996) e Todo Mundo Odeia o Chris (2005 – 2009) pautavam racismo e a educação de famílias negras americanas em meio as piadas do roteiro.

 

E tudo isso é compreensível e de acordo com a realidade de muitos jovens negros. Mas é difícil não se perguntar como seria ser um protagonista adolescente que pudesse… Sabe, viver dramas adolescentes!

 

Parece que este marco foi conquistado pela atriz Zendaya, que protagoniza a nova série da HBO Euphoria, com previsão de estreia para 16 de junho. “É a sensação que procurei a vida inteira!”, declarou a jovem Zendaya na divulgação do primeiro trailer da série, que você confere abaixo.

 

 

Com menos de 30 segundos, o vídeo já adianta que esta série terá uma pegada Skins (2007 – 2013), indicando que, vem por aí, um tom dramático, ao contrário dos outros títulos que eu citei nesse artigo. Talvez por isso tenha sido fácil imaginar uma adolescente negra como protagonista? Não sabemos. Mas aparentemente os dramas vividos pela personagem de Zendaya não vão girar em torno de raça – o que não descartaria o fato de que esta seria uma personagem negra!

 

Jamais minimizaria todo o drama perfeitamente inserido em Te Vejo Ontem, um filme que, aliás, surpreende muito em qualidade no roteiro. Mas parece que este tipo de arco só existe para justificar para o espectador o porque daqueles protagonistas serem negros. Fica quase difícil imaginar um universo onde CJ e Sebastian pudessem voltar no tempo por qualquer outro motivo mirabolante.

 

Embora sejam poucas, existem referências de roteiros que realizam esta façanha. Como o de Grown-ish, série spin-off de Black-ish, que transformou a filha mais velha dos Johnson, Zoey (Yara Shahidi), em protagonista!

 

Como o nome sugere, Grown-ish fala sobre o início da fase adulta da personagem que foi apresentada ao mundo como uma adolescente, incluindo todos os tropeços para conquistar independência e maturidade. E, adivinha? Tudo isso sem descartar o fato de que Zoey é uma personagem negra, sem perder a negritude dela como um todo. Como deveria ser. Nossas histórias nunca são apenas histórias.

 

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